terça-feira, 29 de março de 2011

"Não fique assim"

Foi o quê ele disse à menina. "As coisas vão ficar melhores... Já já vai amanhecer... Você vai ver..."

Seus olhos fecharam-se por um instante. Ele sentiu o ar gelado da madrugada queimando seus pulmões.

A criança chorava. Não sabia o quê estava acontecendo, mas de alguma forma sentia que não estava certo.

Para acalentá-la ele colocou a mão sobre sua fronte e puxou-a para seu peito. O calor do abraço paternal, mesmo que aquele não fosse seu pai, a confortava. Ela calou-se e o único ruído que fazia era dos copiosos soluços.

Vendo que ela estava mais calma, sorriu. Olhou para baixo. Viu o sangue de seu flanco que aos poucos pingava no chão. Não iria ver o amanhecer. Ele sabia disso. Então a apertou mais forte, como quem se despede e manteve-a consigo.

A menina adormeceu abraçada ao seu protetor em meio ao beco sujo e escuro no qual escondiam-se de seus antigos captores. Já estava ameaçando raiar o dia quando finalmente ambos descansaram. Mas apenas um deles voltaria a ver o dia.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Do Escuro

E então ele se viu no escuro. Olhava ao redor e nada via.

Mas algo captou seu olhar. Ele não sabe como, porque não via, mas sabia.

Com um rápido fulgor a luz se fez à sua frente. Pequena. Feminina. De asinhas iguais às de um inseto.

Ele tentou tocá-la. Mas sua mão a atravessou e novamente ele viu-se no escuro.

Ele não entendeu. Mas não era a primeira vez. Deu de ombros e dormiu. E perdeu o quê mais poderia ter encontrado lá. Coisas que não estariam ao raiar do dia.